WATCHMEN (REVIEW) - SNYDER SENDO SNYDER!

 DIÁRIO DE RORSCHACH,

SEGUNDA-FEIRA...
ONZE ANOS DE WATCHMEN!


WATCHMEN (REVIEW) - SNYDER SENDO SNYDER!


Em 2009 chegava aos cinemas, Watchmen; escrito por David Hayter e Alex Tse, e dirigido pelo sempre controverso Zack Snyder; o filme fez sucesso entre os fãs mais fervorosos dos quadrinhos, porém passou longe de agradar o grande público. Cadenciado e fiel a obra original de Alan Moore, Watchmen trouxe um filme de heróis(ou anti-heróis) muito diferente do que estávamos acostumados a assistir, e claro que como tudo que é diferente, o longa acabou dividindo opiniões e se tornando uma das obras mais ambíguas e vanguardistas de sua época.


Um de seus antigos colegas é assassinado, e o vigilante mascarado Rorschach decide investigar um plano para matar e desacreditar todos os super-heróis do passado e do presente. À medida que ele se reconecta com sua antiga legião de combate ao crime, um grupo desorganizado de super-heróis aposentados, dentre os quais somente um possui verdadeiros poderes, Rorschach vislumbra uma ampla e perturbadora conspiração que está ligada ao passado deles e a catastróficas consequências para o futuro.


Após várias anos desejando produzir um filme adaptando a obra de Alan Moore e Dave Gibbons, a Warner finalmente lançou o projeto Watchmen, e o escolhido para ocupar a cadeira de diretor foi Zack Snyder. Fã declarado de histórias em quadrinhos, coube ao cineasta adaptar para os cinemas a que é considerada a melhor graphic novel de todos os tempos. Um desafio e tanto!

O filme contava com um elenco mesclado entre veteranos e outros nomes mais novos na indústria cinematográfica, comandados quadro por quadro por Snyder; que recebera o roteiro das mãos de David Hayter(X-Men) e Alex Tse(Código das ruas). Com orçamento de U$100 milhões de dólares, Watchmen não tinha como foco principal um grande retorno financeiro, mas o filme não deixou de ser uma decepção, com uma bilheteria muito rasa e mal fazendo o filme se pagar.

Logo no começo do longa já percebemos que Snyder irá retratar a obra o mais fielmente possível aos quadrinhos. Vemos vários quadros e sequencias, que remetem a graphic novel e faz o telespectador se sentir dentro das páginas coloridas. Desde a máscara de Rorschach se movendo a cada segundo, até as falas da conversa dos Corujas. Está tudo em seu devido lugar!

A trilha sonora do longa é um show a parte. Ouvimos desde Janes Joplin até Bob Dylan, e o melhor, as músicas não estão lá apenas por estar; elas fazem parte do ambiente e ajudam a entendermos o que se passa nas cenas, o sentimento de cada personagem ali retratado. Quando ouvimos Sound of silence no velório do Comediante é de arrepiar e perguntamos a nós mesmos o porquê de mais diretores não terem o mesmo cuidado com a trilha sonora que Zack Snyder tem. É algo lindo de se apreciar e coloca ainda mais sentimento em toda a filmografia, seja você um cinéfilo de carteirinha, ou apenas um telespectador ocasional.

Vemos Rorschach andando pelas ruas de uma metrópole decadente e suja; parecendo farejar o odor do crime; e vemos o mesmo Rorschach escalando um prédio para encontrar a cena de um assassinato, sempre com aquela fotografia maravilhosa de Larry Fong e nos fazendo mergulhar nessa Nova York alternativa dos anos 80 beirando um confronto nuclear, causado por uma forte tensão entre Estados Unidos e União Soviética. Já podemos ver por essa sequencia que Watchmen não é um filme qualquer, e essa realidade alternativa, até que não é tão alternativa assim.


Aliás, Rorschach é o ponto alto do filme. Jackie Earle Haley interpretou o vigilante sanguinário de uma forma tão profunda que nos fez ficar do lado do anti-herói em todas as ocasiões; desde suas conversas com os demais membros de sua equipe de Vigilantes, até a cena épica da rebelião no presídio; onde Jackie está maravilhoso, e a direção de Snyder chega ao ápice(destaque para a derradeira cena no banheiro da penitenciária).

Outro ponto altíssimo do longa é quando Rorschach conta o motivo de ter se tornado um justiceiro tão feroz quanto suas vítimas. É impossível não pensarmos em todos os fatos que somos testemunhas todos os dias em nossa vida e em como tudo isso pode afetar qualquer um de nós, causando um trauma que pode ser levado para toda a vida, mesmo que não seja em uma escala Rorschach de insanidade.

Outro que está perfeito (como sempre) é Jeffrey Dean Morgan na pele do Comediante. Jeffrey vende muito bem a ideia de um bad guy distribuindo socos e tiros para todo lado. Os flashbacks que mostram o Comediante em ação são deliciosos de se apreciar e nos passam um pouco do drama contido na obra e de tudo que o mundo desses personagens passou para chegarem até este exato ponto onde a humanidade fica a cada segundo mais perto de uma guerra que pode devastar a vida humana da face da Terra para sempre.


“Watchmen é um filme que necessita mais do que duas horas para você entender. É preciso ter gosto pelo cinema e pela arte. São diversas camadas que se sobressaem na tela, formando um conjunto artístico que apesar de não ser perfeito, é lindo de se ver”



WATCHMEN (REVIEW) - SNYDER SENDO SNYDER!


Mas nem tudo na vida são flores, e em Watchmen as flores passam longe. A começar pelas atuações de Malin Akerman (Spectral) e Matthew Goode (Ozymandias). Malin não se firma em cena, e permanece apática em suas falas e bobeia em todos os momentos de ação (que já não são muitos). E por falar em atuação ruim, falamos em Matthew Goode. Seu Ozymandias está robótico e caricato ao extremo; sua armadura a lá “Batman George Clooney” só não é pior que sua presença em cena, tão inexpressiva quanto o talento de Malin Akerman.

No ato final quando chega a hora de seu personagem brilhar é quando Goode mais decepciona e prejudica mais ainda um roteiro que já não foi muito amigável com o ator. Ozymandias está bem diferente de sua versão dos quadrinhos, e está mais apático e sociopata do que aquele homem que Alan Moore nos apresentou como um filantrópo e que  deveria possuir o conhecimento de mudar o curso da história. Ponto negativo para Matthew Goode, ponto negativo para os roteiristas!

Mas e o Dr. Manhattan?

Bom, ele parece ser o único meta-humano desse universo de Watchmen (embora haja uma cena de combate que quase nos faz acreditar que Coruja e Spectral são Superman e Mulher Maravilha) e não qualquer meta-humano, o cara é praticamente um Deus e manipula os átomos da maneira que preferir, isso sem contar que Manhattam é praticamente uma bomba nuclear ambulante, fato que é usado como muleta no ato final do filme.
Billy Crudup foi o responsável por viver o azulão em Watchmen. Assim, como nas HQs o doutor mostra-se bem distante da humanidade, sendo Spectral praticamente seu único interesse na vida terrestre, sendo sua maior motivação em querer voltar a Terra após seu exílio em Marte. Billy não foi ruim em sua atuação, foi competente e entregou um Dr. Manhattam coeso com o universo no qual faz parte.

Patrick Wilson e Carla Gugino ( E QUE BELA CARLA GUGINO!!! ) também estão no longa e são impecáveis em seus papéis de Coruja II e Sally Jupiter, respectivamente.
Mas o que mais prejudica Watchmen é o ritmo lento da trama. E devemos dar esse crédito a Zack Snyder. O diretor que tem por fama querer adaptar fielmente momentos dos quadrinhos em seus longas, aqui tropeça nessa sua característica.

O filme é muito fiel a sua obra original e por mais que isso pareça bom, não é. Tem certas coisas que só funcionam com o impacto desejado nas próprias páginas dos quadrinhos; assim como tem cenas que só funcionam nas telas.
Snyder tem que perceber que só boas intenções não bastam e colocar o quadrinho na tela é maravilhoso, mas em uma cena ou outra, não como uma regra absoluta na trama. Bem como querer transformar cada enquadramento em uma obra de arte. O que fica lindo em seu storyboard, mas causa um superlativo nas telas, que por várias ocasiões, dificulta a compreensão de suas obras.
O ritmo do longa foi muito comprometido e jogou ladeira abaixo as expectativas para a tão esperada adaptação. O diretor deu uma amostra do que faria depois em O Homem de aço e Batman vs. Superman: uma trama profunda, com ótimos personagens mas que tropeça nas próprias pernas.

A versão de 215 minutos do longa chega a ser quase impossível de ser digerida. São muitos as cenas desnecessárias e as longas interações entre os personagens; minutos preciosos que poderiam ter sido usados para responder perguntas importantes deixadas em aberto.

“Por que a máscara de Rorschach se movimenta sozinha?” “Por que Ozymandias tinha um pequeno exército de cientistas a seu favor e o Governo não desconfiava de seus planos?” “Por que o plano final de Ozymandias deu certo se o mais natural seriam as autoridades de outros países bombardearem imediatamente os Estados Unidos (que tinham como seu símbolo o próprio Dr. Manhattam)?”

São várias as questões sem resposta que deixam Watchmen ainda mais confuso do que ele já é por natureza. Apesar de ser um filme muito bom do ponto de vista técnico, a parte da alma do filme, seu roteiro, traz muitas falhas e esquece de pegar o melhor do mundo desses personagens, que é o fato de desconstruir o gênero de super-herói e propor uma nova leitura sobre aquela trama e o ambiente em que vivemos.
Seria incrível Snyder ter utilizado um enredo mais original que aproveitasse a atmosfera de Watchmen e o passado dos personagens como influência; não exagerando nas referências e apenas usando o clima mais mórbido e angustiante de Nova York alinhados ao lado humano de cada vigilante, o lado mais quebrável de cada um deles; o lado do medo e da opressão; o lado que os torna frágeis.


WATCHMEN (REVIEW) - SNYDER SENDO SNYDER!


Super-Vigilantes frágeis, justamente essa a temática que fez de Watchmen a obra máxima dos quadrinhos. Desconstruir o super-herói e moldá-lo a imagem do mundo em que habitamos, onde as pessoas não tem superpoderes e nem vigilantes para nos proteger, apenas o mundo das ruas que cada vez mais parece ditar as regras do nosso cotidiano.

Na política atual, vemos pessoas enaltecendo ditadores e políticos que pregam campanhas de ódio e nos afastam cada vez mais, fazendo com que seus eleitores caminhem sempre mais distantes uns dos outros, olhando apenas para suas diferenças, ao invés de suas semelhanças. É triste ver que o Relógio do Apocalipse se adianta para todos nós, e isso não é um exagero. Temos guerras, corrupção, fome, e até sede invadindo os noticiários; tudo isso em uma era tecnológica que poderia ser a nossa maior aliada no combate a desigualdade entre classes, e não apenas um instrumento para criarmos ídolos artificiais. É preciso acordamos antes que o relógio chegue a nossa última meia-noite, pois quando chegar não teremos nenhum político racista, e muito menos algum vigilante para nos proteger.

Watchmen não é só um filme de super-heróis ou anti-heróis; ele possui uma alma própria que assusta a priori, mas que com a paciência do telespectador entrega muito mais do que parece, e muito menos do que Alan Moore merece. E goste você ou não do diretor, com menos Zack Snyder, e mais Alan Moore, Watchmen teria abocanhado uma parcela bem maior dos fãs do gênero. Mesmo assim, essa obra não deixa de ser um clássico, e que ficará na mente de quem o assistiu por muitos e muitos anos.


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