CRÍTICA DE "A FREIRA"




A FREIRA ( CRÍTICA )

“O bom que podia ser ótimo”




Quando uma jovem freira que vive enclausurada em um convento na Romênia comete suicídio, um padre com um passado assombrado e uma noviça prestes a fazer seus votos finais são enviados pelo Vaticano para investigar o caso. Juntos, eles desvendam o segredo profano da ordem. Arriscando não só suas vidas, mas também sua fé e suas alams, eles confrontam a força malévola que assume a forma da mesma freira que aterrorizou o público em "Invocação do mal 2", à medida que o convento se torna um horripilante campo de batalha entre os vivos e os amaldiçoados.


Dirigido por Corin Hardy ( A Maldição da floresta ) e roteirizado por Gary Dauberman ( Annabelle 2 ), chegou aos cinemas na última semana “A Freira”. O filme, cercado de expectativas, prometia entregar o capítulo mais assustador de todo o Universo Invocação do mal, mas o que vimos na tela foi algo um pouco diferente.

Em primeiro lugar, NÃO! O filme não é ruim. Apenas não é tão bom quanto o que esperávamos dele.
Desta vez foi Corin Hardy que ficou responsável por levar a franquia as telonas, e talvez essa tenha sido uma má escolha do produtor e criador deste universo, James Wan.
Não podemos crucificar Corin como o pior diretor do mundo, mas fica claro que seu trabalho poderia ser muito melhor.
Os jump-scares que todos nós amamos desde o primeiro “A invocação do mal” de 2013 estão lá, o problema é que o diretor não foca em outro ponto-chave da franquia: o medo pelo desconhecido.

Afinal, por que temos tanto medo do escuro?

Na verdade, o medo que sentimos, não é propriamente do escuro , e sim daquilo que o escuro pode nos causar, daquilo que pode acontecer enquanto você está as cegas. James Wan fez um ótimo trabalho nesse quesito em 2013, quando trouxe algo tão comum como o “medo do desconhecido” e causou um pavor tão grande na cabeça dos telespectadores. Foi algo simples e genial ao mesmo tempo.

Em “A Freira”, Corin Hardy até tenta nos assustar como Wan lhe ensinou mas o problema é que ele só fica na tentativa. A primeira meia hora de filme é boa e promete entregar algo grandioso mais a frente, porém essa expectativa cresce e cresce... e não entrega.
Os sustos até funcionam no começo, mas conforme você vai se familiarizando com o cenário e o ritmo fica fácil saber de onde virá a próxima aparição, e mesmo os jump-scares te fazendo tremer na sala do cinema, não o fazem tremer pelo medo, e sim pelo som estridente.
Os sustos fáceis produzem um ótimo êxito quando inseridos alternadamente mas em demasia, acabam enjoando e entregando todos os próximos minutos de cena. No começo do filme os sustos podem até impressionar, mas antes da metade você já vai estar enjoado e como um ótimo vidente, saberá todos os momentos do filme que tentarão te assustar, mas como já vai saber, eles só ficarão na tentativa de te assustar.

Algo muito grave que fica claro aos olhos de todos os telespectadores são as cenas ao estilo “Vi algo em um ambiente estranho e sombrio, e estou sozinho? VOU INVESTIGAR!”.
Não é possível que os atuais diretores não pensem no como esse clichê chega a ser além de bobo, completamente inverossímil. Mas parece que eles gostam que a plateia chame seus personagens de “burros”; senão for isso, não tem outro motivo para eles usarem esse artifício, e no caso de “A Freira”, usar mais de uma vez.

Um ponto que deveria ter sido muito mais explorado foi o passado do demônio Valak, que pouco foi citado no longa, mas que é o responsável por personificar a imagem da freira demoníaca. Apenas algumas pinceladas foram pouco para um filme que conta sua origem. Era necessário mais tempo de cena para podermos compreender melhor o que é e tudo que fez e ainda pode fazer durante sua vida amaldiçoada, e se possível colocar mais conexões com momentos da história cristã, proporcionando um tom mais íntimo ao telespectador.

Outro defeito do filme, o humor excessivo. Depois que a fórmula Marvel de fazer cinema contagiou os estúdios tem sido cada vez mais comum vermos filmes que exageram no tom humorístico de suas histórias, e quando isso acontece em um filme de terror, a frustração é dobrada.
O personagem French, interpretado pelo ótimo Jonas Bloquet é quase um comediante na trama. O rapaz faz piada em todos os momentos que aparece em cena, e é protagonista de uma das piores cenas do longa ( onde a crença não mata, mas a escopeta sim ). O ator não é ruim, pelo contrário, mostra muito talento para o lado mais cômico e heroico, pena que o filme não pedisse isso; ainda mais quando é vendido como “o filme mais assustador de todo o Universo Invocação do mal”.


O longa foi todo filmado na Romênia, e após ver o resultado final eu confesso que não imagino lugar melhor para ser o escolhido. O lugar é mórbido e maravilhoso ao mesmo tempo, com florestas e um aspecto bem rural, tanto no cenário como nas vestimentas dos habitantes da região, lembrando sempre que o filme se passa no ano de 1952.
A Abadia de Santa Carta foi toda montada em estúdio, já que as leis da Romênia não permitem filmagens em ambientes religiosos. E cada mínimo detalhe foi lembrado pela designer de produção Jennifer Spence e pela cenógrafa Gina Calin; desde os móveis que remetem muito ao período neoclássico até as fotografias espalhadas pelos ambientes ( detalhe para a fotografia que aparece em Annabelle 2) ,os cenários estão deslumbrantes e  chega a ser difícil de acreditar que aquilo tudo não era uma abadia de verdade.

A iluminação é perfeita, como em todos os filmes da franquia, mostrando somente o necessário. E principalmente no começo do filme, utilizando as sombras como um dos ingredientes principais das cenas de maior tensão.
Maxime Alexandre que já havia trabalhado em Annabelle 2, repete o ótimo trabalho de fotografia, captando quadro por quadro cuidadosamente, utilizando perfeitamente a iluminação do cenário e fazendo os telespectadores se sentirem dentro do ambiente.


O elenco do filme é bom, temos como destaque o já citado Jonas Bloquet e a sempre correta e linda Charlotte Hope, interpretando a Irmã Oana. Por sua vez Demian Bichir não entrega o suprassumo da atuação como Padre Burke, em alguns momentos chega a ser chato e sua expressões de pavor não caem bem em um padre que deveria ser experiente no combate as forças sobrenaturais.
Bonnie Aarons mais uma vez dá vida à Freira demoníaca e mais uma vez está impecável, e mesmo o seu trabalho não sendo lá a atuação mais difícil do mundo, ela usa muita bem dos artifícios e da maquiagem para produzir feições que arrepiam qualquer um. Uma pena que seu personagem tenha sido muito banalizado nesse longa. Em “Invocação do mal 2”, víamos sua aparição em momentos cruciais da história e sua mera presença já nos paralisava, já em “A Freira” ela tem aparições mais constantes ( até por ser seu filme solo ), o que tira um pouco do pavor que temos ao vê-la. A imagem da freira é possivelmente uma das melhores caracterizações de filmes de terror deste século e deve se tomar muito cuidado para não desperdiçar um personagem com tamanho potencial.


Agora sim, vamos falar do ponto mais alto de “A Freira”: Taissa Farmiga.
A veterana de American Horror Story fez bonito interpretando a noviça Irene. A moça, que é irmã de Vera Farmiga, intérprete de Lorraine Warren em Invocação do mal 1 e 2, foi impecável em sua atuação e mostrou ter tanto talento quanto sua irmã mais velha.
Irene é angelical quando precisa, mas ao mesmo tempo mostra uma garra inacreditável nos momentos de maior tensão. Suas expressões são muito credíveis e ela vende perfeitamente a imagem de uma scream queen. Em nenhum momento Taissa desanda na interpretação, que por si só, já vale o ingresso; e é no clímax do filme que ela atinge o ápice como Irene e mostra que na família Farmiga o talento está no sangue!

O final do longa não tem nada que nunca tenha sido visto antes, como todo o filme, para na barreira do “OK”. Claro que o diretor deixaria o gancho para uma continuação, que parece não ser tão necessária como a de Annabelle( mas que com certeza virá ).

A Freira é um bom filme de terror, com um bom elenco e um cenário que mete medo por si só. Contudo, a direção do filme atrapalha muito, tentando se escorar em sustos fáceis e piadas fora de hora, além de nunca entregar aquilo que oferece. Por essas, um filme que poderia fazer história e ser muito mais assustador, não ultrapassou a barreira da ousadia, e mesmo sem ter decepcionado, acabou se tornando “apenas” um bom filme.



“A Freira é um perfeito exemplar de como uma orquestra, por melhor que seja, precisa de um maestro a sua altura para obter o sucesso esperado”



                                                                                                                                   NOTA: 6,0/10

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