BIG LITTLE LIES: A ANÁLISE DA SEGUNDA TEMPORADA


SERÁ O FIM
DAS CINCO DE MONTEREY?
          




No último domingo foi ao ar o episódio final da segunda temporada(e por enquanto a última) de Big Little Lies.
A série que foi um verdadeiro fenômeno no ano de seu lançamento em 2017, voltou para uma segunda temporada que ninguém esperava, mas que ao mesmo foi fundamental para saciarmos nossa saudade desse elenco maravilhoso.

Jean-Marc Vallée mais uma vez fez um ótimo trabalho de direção nesta temporada, mas agora teve uma grande ajuda de Andrea Arnold(principalmente nos primeiros episódios). Novamente, a montagem, fotografia, som e roteiro estiveram na mesma página, e em perfeita sincronia.

Diferente da primeira temporada, que fora baseada no best-seller homônimo de Liane Moriarty, a trama desta temporada foi desenvolvida com base em textos escritos pela própria autora para Jean-Marc, textos que apontavam quais seriam as consequências para cada uma das cinco personagens principais envolvidas no assassinato de Perry, no último episódio da primeira temporada. A autora conhece como ninguém suas criações, e a pedido da HBO tratou logo de produzir mini-roteiros para cada uma de suas personagens, e assim, estes textos serviram de base para o roteiro de David Kelley, também idealizador do projeto.

O que parecia ser uma busca infindável por mais din din, acabou se tornando uma temporada tão profunda quanto a primeira, e mais um show de episódios com temas tão comuns do nosso cotidiano, mas que ao mesmo tempo, se tornam tabus. A violência contra a mulher, o reflexo deste crime na visão dos próprios filhos e amigos e as consequências que uma criação equivocada pode trazer na vida adulta de uma pessoa. Resumindo em uma apenas uma palavra, trauma. A segunda temporada de Big Little Lies pode ser definida como a temporada das experiências traumáticas.

Seja o trauma de uma mãe que não quer aceitar que arranhem a imagem de seu falecido e amado filho, seja da vítima que quer dar uma nova chance para se lançar ao mar, porém tem uma âncora de seu passado que não a deixa, seja no caso de um adultério que o faz ficar de mãos atadas, ou que até mesmo seja um trauma no seu orgulho e no seu bolso. Todos estes traumas e vários outros estiveram presentes nesta temporada, e algo também esteve presente; o sucesso! O sucesso em abordar cada um deles com simplicidade mas ao mesmo tempo, com o carinho e o respeito que cada uma dessas vítimas(e culpadas) merece.


O FATOR MARY LOUISE

O elenco que já contava com estrelas do nível de Nicole Kidman, Laura Dern, Reese Witherspon e uma maravilhosa Shailene Woodley, teve o acréscimo de Meryl Streep nesta segunda temporada, e me atrevo a dizer que: Meryl você é ridícula de tão perfeita!

Estamos diante de, possivelmente, a melhor atriz que essa geração irá ver, com uma entrega a cada papel que faz suas personagens saltarem de senhoras bondosas ao próprio Diabo em pessoa, com uma apenas um segundo, ou melhor, com um olhar.

Mary Louise entrou na trama para ser o epicentro do turbilhão que foi esta temporada, e ela não fez por menos. Atiçou a curiosidade do público para descobrir o que realmente ela sabia sobre a morte de seu filho Perry, nos irritou com sua insistência em tirar a guarda de Josh e Max de Celeste, e foi capaz de atuações tão maravilhosas que nos faziam vacilar várias vezes, se realmente não era ela a dona da razão em toda essa história.

A cena dos “grito na mesa” e o derradeiro julgamento, são apenas alguns exemplos do porquê Mary Louise ter roubado as atenções para ela. Porém isso nem deveria surpreender mais, mas esse é o maior talento de Meryl Streep, nos fazer ser surpreendidos com suas atuações, mesmo quando já sabemos que seremos.





Reese Witherspon entregou uma Madeline instável durante toda a temporada, mas que sempre esteve do lado de suas amigas, nem sempre com seu juízo perfeito(afinal ela é a Madeline), mas sempre leal. Coisa que não fez com seu marido Ed, que ganhou muito espaço na segunda temporada. Transitando entre ser um “mala” e um bom marido, ele mostrou ser um homem indulgente e que ainda acredita em sua família.

Laura Dern também roubou a cena, e diferente da primeira temporada, sua personagem Renata teve um dos arcos mais interessantes do núcleo de Monterey(e um dos mais divertidos também). Em contrapartida, Shaileene Woodley e sua personagem Jane não tiveram a mesma atenção dada na primeira temporada do show, mas sempre que exigida Shaileene foi perfeita; destaque para sua interação fofíssima com o pequeno Iain Armitage, um dos melhores nomes mirins do mercado de atuações.





O arco de Bonnie(Zoe Kravitz) foi interessante em alguns pontos por dar mais espaço a uma personagem que apesar de carregar o fardo de um crime nas costas, não recebeu tanta atenção assim na primeira fase da série; entretanto esta atenção foi compensada com exagero agora, e muitas vezes, seu arco foi um tanto monótono. Mesmo com temas muito bons de serem abordados como sua relação com Nathan e o alcoolismo de sua mãe; o desenvolvimento de Zoe foi do interessante no começo da temporada para um final insosso, que muitos esperavam que seria mais trágico do que foi.
No fim, aparentemente, a personagem perdeu sua luta interior e junto com suas amigas tomaram uma decisão que deixa o futuro aberto para quem sabe uma possível continuação da série.

Agora a parte mais angustiante deste ano em Big Little Lies, o drama interno de Celeste e sua constante briga com o fantasma de Perry, sua sogra Mary Louise, e acima de tudo, a batalha com si mesma. Vítima de um relacionamento abusivo e que quase custou sua vida algumas vezes, ela deve juntar os cacos que sobraram e buscar se reerguer antes que a justiça e Mary Louise lhe retirem o seu bem mais precioso, seus filhos.

Os últimos dois episódios da série foram praticamente focados neste doloroso julgamento, e pode parecer pouco para alguns que se acostumaram com o final avassalador da primeira temporada, porém esta temporada foi muito mais reação do que ação, e o julgamento não trouxe somente a relação bem vs. mal, trouxe várias camadas dessas personagens, que julgávamos serem tão superficiais quando a conhecemos, mas que aos poucos foram nos conquistando e fazendo com esta série não fosse apenas um exemplar de drama “normal”, e sim um instrumento de aprendizado, onde cada episódio era um módulo da dobradinha dor e superação.




Big Little Lies encerra sua passagem nas telas, porém não em nossas vidas. Mais um show da HBO que nos entretém, nos emociona e nos ensina a sermos pessoas melhores, e que mostra que lá no fundo a vida de ninguém é perfeita, desde a hypster que mora no campo até a multimilionária da cidade; todos têm suas “pequenas grandes mentiras” em seu interior, e um grande teto de vidro sob nossas mentes.

Não há planos para uma terceira temporada de Big Little Lies, porém como a própria Reese Witherspon disse: “Não havia planos para uma segunda temporada, e mesmo assim, aconteceu”. E esta segunda temporada veio para mostrar que quando falamos das Cinco de Monterey, tudo é possível!


Nenhum comentário:

Postar um comentário