WATCHMEN, POR ZACK SNYDER (REVIEW)


DIÁRIO DE RORSCHACH,
SEGUNDA-FEIRA...
DEZ ANOS DE WATCHMEN!




Fala geeks e geekonas! Estamos cada vez mais próximo da estreia de Watchmen, série produzida pela HBO, e que irá se basear na HQ de mesmo nome, considerada a melhor história em quadrinhos de todos os tempos.

Além das história em quadrinhos,  Watchmen já teve também um filme. Dirigido por Zack Snyder, o longa Watchmen foi controverso, e teve  uma recepção mista tanto por parte dos fãs de quadrinhos como da crítica. Porém, agora é a vez do showrrunner Damon Lindelof (Lost) assumir o comando da nave-coruja e levar os vigilantes novamente as telas em mais um ousado projeto da HBO.
E para comemorarmos o retorno de Watchmen a frente das câmeras, o GR resolveu dar uma olhadinha no fundo do baú e refrescar a crítica de Watchmen: O filme, lançado no ano de 2009. Então fiquem ligados porque o apocalipse nunca esteve tão perto!


Um de seus antigos colegas é assassinado, e o vigilante mascarado Rorschach decide investigar um plano para matar e desacreditar todos os super-heróis do passado e do presente. À medida que ele se reconecta com sua antiga legião de combate ao crime, um grupo desorganizado de super-heróis aposentados, dentre os quais somente um possui verdadeiros poderes, Rorschach vislumbra uma ampla e perturbadora conspiração que está ligada ao passado deles e a catastróficas consequências para o futuro.



Em 2009 chegava aos cinemas, Watchmen; escrito por David Hayter e Alex Tse, e dirigido pelo sempre controverso Zack Snyder; o filme fez sucesso entre os fãs mais fervorosos dos quadrinhos, porém passou longe de agradar o grande público. Cadenciado e extremamente fiel a obra original de Alan Moore, Watchmen trouxe um filme de heróis muito diferente do que estávamos acostumados a assistir, e claro que como tudo que é diferente, o longa acabou dividindo opiniões e se tornando uma das obras mais ambíguas e vanguardistas de sua época.

Para começo de conversa, é bom lembrar que Watchmen possui duas versões: o corte de cinema, com cerca de 155 minutos; e o corte do diretor, com quase uma hora a mais e lançado no blu-ray do filme. Neste texto daremos maior foco na versão lançada nos cinemas, por ter tido mais alcance entre os telespectadores.
Após várias anos desejando produzir um filme adaptando a obra de Alan Moore e Dave Gibbons, a Warner finalmente lançava em 2009 “Watchmen”. E o escolhido para ocupar a cadeira de diretor foi Zack Snyder. Fã declarado de histórias em quadrinhos, coube ao cineasta adaptar para os cinemas a que é considerada a melhor de todas as HQs.

O filme contava com um elenco mesclado entre veteranos e outros nomes mais novos na indústria cinematográfica, comandados quadro por quadro por Snyder; que recebera o roteiro das mãos de David Hayter( X-Men ) e Alex Tse( Código das ruas ). Com orçamento de U$100 milhões de dólares, Watchmen não tinha como foco principal um grande retorno financeiro, mas o filme não deixou de ser uma decepção, com uma bilheteria muito rasa e mal fazendo o filme se pagar.

Logo no começo do longa já percebemos que Snyder irá retratar a obra o mais fielmente possível aos quadrinhos. Vemos vários quadros e sequencias, que remetem a graphic novel e faz o telespectador se sentir dentro do quadrinho. Desde a máscara de Rorschach se movendo a cada segundo, até as falas da conversa dos Corujas. Está tudo em seu devido lugar!
A trilha sonora do longa é um show a parte. Ouvimos desde Janes Joplin até Bob Dylan, e o melhor, as músicas não estão lá apenas por estar; elas fazem parte do ambiente e ajudam a entendermos o que se passa nas cenas, o sentimento de cada personagem ali retratado. Quando ouvimos Sound of silence no velório do Comediante é de arrepiar e perguntamos a nós mesmos “Por que mais diretores não têm o cuidado com a trilha sonora que Zack Snyder tem?”. É algo lindo de se apreciar e coloca ainda mais sentimento em toda a filmografia.

Vemos Rorschach andando pelas ruas de uma metrópole decadente e suja; parecendo farejar o odor do crime; ou ver o mesmo Rorschach escalando um prédio para encontrar a cena de um assassinato, sempre com aquela fotografia maravilhosa de Larry Fong e nos fazendo mergulhar nessa Nova York alternativa dos anos 80 beirando um confronto nuclear, causado por uma forte tensão entre Estados Unidos e União Soviética, que se encontravam em uma Guerra Fria sem fim. Já podemos ver por essa sequencia que Watchmen não é um filme qualquer.


Aliás, Rorschach é o ponto alto do filme. Jackie Earle Haley interpretou o vigilante sanguinário de uma forma tão profunda que nos fez ficar do lado do anti-herói em todas as ocasiões; desde suas conversas com os demais vigilantes até a cena épica da rebelião no presídio; onde Jackie está maravilhoso, e a direção de Snyder e a fotografia de Larry Fong chegam ao ápice da sincronia. Destaque para a derradeira cena no banheiro da penitenciária.

Outro ponto altíssimo do longa é quando Rorschach conta o motivo de ter se tornado um justiceiro tão feroz quanto suas vítimas. É impossível não pensarmos em todos os fatos que vemos todos os dias em nossa vida e em como tudo isso pode afetar a mim, você ou qualquer outra pessoa, causando um trauma que pode ser levado para toda a vida, mesmo que não em uma escala Rorschach.

Outro que está perfeito ( como sempre ) é Jeffrey Dean Morgan na pele do Comediante. Jeffrey vende muito bem a ideia de um bad guy distribuindo socos e tiros para todo mundo que passe em seu caminho. Os flashbacks que mostram o vigilante Comediante em ação são deliciosos de se apreciar e nos passam um pouco do drama contido na obra e de tudo que o mundo desses personagens passou para chegarem até este exato ponto onde a humanidade fica a cada segundo mais perto de uma guerra que pode devastar a vida humana para todo sempre. Jeffrey Dean Morgan parece que fica melhor com o tempo e cada momento de seu trabalho nas telas é um sopro de talento aos nossos olhos.


“Watchmen é um filme que necessita mais do que duas horas para você entender. É preciso ter gosto pelo cinema e pela arte. São diversas camadas que se sobressaem na tela, formando um conjunto artístico que apesar de passar longe da perfeição, é lindo de se ver”





Mas nem tudo na vida são flores, e em Watchmen as flores passam longe. A começar pelas atuações de Malin Akerman (Spectral ) e Matthew Goode ( Ozymandias ). Malin não está ruim, está péssima! Senão fosse sua bela aparência, Hollywood já teria a cuspido a muito tempo. A moça está apática em suas falas e bobeia em todos os momentos de ação ( que já não são muitos ). Seu uniforme também está muito mal feito, parecendo que só foi feito para realçar suas curvas ao invés de mostrar seu lado combatente do crime. E por falar em uniforme ruim, falamos em Ozymandias. Matthew Goode está robótico e caricato ao extremo na pele do homem mais inteligente do mundo; sua armadura a lá “Batman George Clooney” só não é pior que sua presença em cena, tão inexpressiva quanto o talento de Malin Akerman.

No ato final quando chega a hora de seu personagem brilhar é quando Goode mais decepciona e prejudica mais ainda um roteiro que já não foi muito amigável com o ator. Ozymandias está bem diferente de sua versão dos quadrinhos, e está mais apático e sociopata do que aquele homem que Alan Moore nos apresentou como um filantrópo e que  deveria possuir o conhecimento de mudar o curso da história. Ponto negativo para Matthew Goode, ponto negativo para os roteiristas!


Mas e o Dr. Manhattam?

Bom, ele parece ser o único meta-humano desse universo de Watchmen ( embora haja uma cena de combate que quase nos faz acreditar que Coruja e Spectral são Superman e Mulher Maravilha ) e não qualquer meta-humano, o cara é praticamente um Deus e manipula os átomos da maneira que preferir, isso sem contar que Manhattam é praticamente uma bomba nuclear ambulante, fato que é usado como muleta no ato final do filme.
Billy Crudup foi o responsável por viver o azulão em Watchmen. Assim, como nas HQs o doutor mostra-se bem distante da humanidade, sendo Spectral praticamente seu único interesse na vida terrestre, e é o que o faz querer voltar a Terra após seu exílio em Marte. Billy não foi ruim em sua atuação, foi competente e entregou um Dr. Manhattam coeso com aquele mundo.

Patrick Wilson e Carla Gugino ( E QUE BELA CARLA GUGINO!!! ) também estão no longa e são medianos e nada mais, em seus papéis de Coruja II e Sally Jupiter, respectivamente.
Mas que mais prejudica Watchmen é o ritmo lento da trama. E devemos dar esse crédito a Zack Snyder. O diretor que tem por fama querer adaptar fielmente momentos dos quadrinhos em seus longas, aqui tropeça nessa sua característica.

O filme é muito fiel a sua obra original e por mais que isso pareça bom, não é. Tem certas coisas que só funcionam com o impacto desejado nas próprias páginas dos quadrinhos; assim como tem cenas que só funcionam nas telas. Snyder tem que perceber que só boas intenções não bastam e colocar o quadrinho na tela é maravilhoso, mas em uma cena ou outra, não como uma regra absoluta na trama.
O ritmo do longa foi muito comprometido e jogou ladeira abaixo as expectativas para a tão esperada adaptação. O diretor deu uma amostra do que faria depois em “O Homem de aço” e “Batman vs. Superman”: uma trama profunda, com ótimos personagens mas que tropeça no roteiro; que causa mais problemas que soluções na cabeça de quem está assistindo.

A versão de 215 minutos do longa chega a ser quase impossível de ser digerida. São muitos as cenas desnecessários e as longas interações entre os personagens; minutos preciosos que poderiam ter sido usados para responder perguntas importantes deixadas em aberto.

“Por que a máscara de Rorschach se movimenta sozinha?” “Por que Ozymandias tinha um pequeno exército de cientistas a seu favor e o Governo não desconfiava de seus planos?” “Por que o plano final de Ozymandias deu certo se o mais natural seriam as autoridades de outros países bombardearem imediatamente os Estados Unidos ( que tinham como seu símbolo o próprio Dr. Manhattam )?”

São várias as questões sem resposta que deixam Watchmen ainda mais confuso do que ele já é por natureza. Apesar de ser um filme muito bom do ponto de vista técnico, a parte da alma do filme, seu roteiro traz muitas falhas e esquece de pegar o melhor do mundo de Watchmen, que é o fato de desconstruir o gênero de super-herói e propor uma nova leitura sobre aquela trama e o ambiente em que vivemos. Seria incrível Snyder ter utilizado um roteiro mais original que aproveitasse a atmosfera de Watchmen e o passado dos personagens como influência; não exagerando nas referências e apenas usando o clima mais mórbido e angustiante de Nova York alinhados ao lado humano de cada vigilante, o lado mais quebrável de cada um deles; o lado do medo e da opressão; o lado que os torna super-heróis frágeis.





Super-heróis frágeis, justamente essa a temática que fez de Watchmen a obra máxima dos quadrinhos. Desconstruir o super-herói e moldá-lo a imagem do mundo em que habitamos, onde as pessoas não tem superpoderes e nem vigilantes para nos proteger, apenas o mundo das ruas que cada vez mais parece ditar as regras do nosso cotidiano.

Na política atual, vemos pessoas enaltecendo ditadores e políticos que pregam campanhas de ódio e nos afastam cada vez mais, fazendo com que seus eleitores caminhem sempre mais distantes uns dos outros, olhando apenas para suas diferenças, ao invés de suas semelhanças. É triste ver que o relógio do Apocalipse se adianta para todos nós, e isso não é um exagero. Temos guerras, corrupção, fome, e até sede invadindo os noticiários; tudo isso em uma era tecnológica que poderia ser a nossa maior aliada no combate a desigualdade entre classes, e não apenas um instrumento para criarmos ídolos artificiais. É preciso acordamos antes que o relógio chegue a nossa última meia-noite, pois quando chegar não teremos nenhum político racista, e muito menos algum vigilante para nos proteger.

Watchmen não é só um filme de super-heróis ou anti-heróis; ele possui uma alma própria que assusta a priori, mas que com paciência do telespectador entrega muito mais do que parece, e muito menos do que Alan Moore merece.




"Com menos Snyder e mais originalidade, Watchmen teria abocanhado uma parcela bem maior de fãs"


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