CORPO FECHADO(2000) - REVIEW


DE VOLTA PRO PASSADO#4
 "CORPO FECHADO"

"Corpo fechado é a prova de que alguns filmes foram feitos para serem vistos fora de seu tempo"


CORPO FECHADO(2001), REVIEW


O jovem diretor indiano M. Night Shyamalan começou o milênio com os olhos do mundo voltados para ele. Após o sucesso de crítica e bilheteria de "O sexto sentido", as expectativas com o trabalho do diretor eram altas, e todos queriam saber se ele teria um outro êxito tão grande como aquele em sua carreira.

Bom, ele teve. Em 2003, "Sinais" lotou as salas de cinema para nos fazer presenciar uma abordagem diferente de uma invasão alienígena, e o longa protagonizado por Mel Gibson virou um ícone da ficção científica, e é lembrado até hoje sempre que aparece os famosos "sinais misteriosos" nas plantações ao redor do mundo.
Porém, três anos antes, Shyamalan havia produzido um outro filme, não tão prestigiado como os outros dois sucessos do diretor mas, de igual ousadia e originalidade.

"Corpo fechado" é um filme que aborda o subgênero de filmes de heróis de uma forma nunca antes vista na sétima arte. Os "heróis" da trama não eram mutantes, deuses ou algo do gênero, eram humanos que carregavam dramas muito maiores; suas doenças.
Fomos apresentados aos dois personagens principais dessa trama: Elijah Price e David Dunn.


Elijah Price, interpretado por Samuel L. Jackson, era um homem que nasceu com uma doença extremamente rara que afetava seus ossos, os enfraquecendo e os deixando praticamente como um frágil vidro. Sua infância não foi fácil, o menino que já nasceu com vários ossos fraturados, passou longos períodos internado em hospitais, e nessas horas, sua principal companhia eram as histórias em quadrinhos que sua mãe o presenteava. Foi nessa época que sua paixão por super-heróis foi despertada e ele passou a acreditar que sua deficiência fazia parte de uma grande história em quadrinhos da vida real, onde ele poderia encontrar seu lugar no mundo, se achasse outras pessoas com habilidades que lembrassem as dele; ou com habilidades contrárias, que seriam ao seu ver, o seu oposto no mundo, o seu arqui-inimigo.


CORPO FECHADO(2001), REVIEW


Do outro lado, temos David Dunn, interpretado por Bruce Willis. Um homem, que era o oposto de Elijah no sentido médico. David nunca havia adoecido, contraído uma simples gripe, se machucado ou qualquer outro tipo de enfermidade. E o mais impressionante, ele acabara de sobreviver a um descarrilamento de trem que fez dezenas de mortos, restando apenas David como único sobrevivente, sem sequer um arranhão. Era exatamente o homem no oposto da linha de Elijah.
Seus caminhos se cruzam através do filho de David, Joseph; que vê em seu pai a figura de um herói e que vai atrás de Elijah, que havia colocado um artigo procurando uma pessoa que fosse forte o suficiente para ser praticamente um super-herói.

A partir deste encontro, seres tão opostos e ao mesmo tempo tão parecidos, interagem e produzem uma relação ao melhor estilo "Charles Xavier/Magneto", conciliando suas habilidades em conjunto, as experimentando e redescobrindo seus limites. David descobre que possui uma outra habilidade; pelo toque ele pode descobrir o que as pessoas guardam nas suas memórias, como um segredo por exemplo.

Também é descoberto que Dunn não era invencível, ele tinha uma fraqueza: a água. O líquido da vida era sua perdição, e isso o transformava em um herói de histórias em quadrinhos perfeito; com bondade, habilidades, sacrifício e até uma fraqueza. Mas como todo herói das HQ's ele precisava de um vilão, e esse era Elijah, ou melhor, Sr. Vidro.


"Corpo fechado" é sobre heróis, sem "super", apenas heróis"


CORPO FECHADO(2001), REVIEW
Shyamalan, diretor do longa


A premissa criada por M. Night Shyamalan é algo tão perfeito de se ver, que quase conseguimos esquecer o final simplório e apático do filme. Seus dois primeiros atos parecem ser tirados diretamente das páginas de um gibi; com filmagens transitando de um quadro para outro na horizontal e enquadramentos que parecem saltar da tela. Só faltou os balõezinhos com as falas dos personagens para tudo virar uma grande HQ viva.

O conceito do mocinho e do vilão são bem estabelecidos em seus dois primeiros atos, e tratados com muita calma. Os 107 minutos de trama chegam a parecer exagerados algumas vezes, com takes mais longos que os de costume, mas há de entender que Corpo fechado não é um filme comum, é um retrato ousado de como dois opostos no mundo podem denominar sua existência perante ao outro.

Bruce Willis, que já havia trabalhado com Shyamalan em "O sexto sentido" traz uma sensibilidade maravilhosa em seu papel, ao mesmo tempo que Jackson mostra um lado "Lex Luthor" em Sr. Vidro que passa uma ótima combinação de compaixão e insanidade. Atuações impecáveis e dignas da qualidade do roteiro escrito por Shyamalan.
Temos a presença mais discreta, mas sempre marcante de Robin Wright (ainda creditada no filme como Robin Wright Penn, devido ao seu casamento com o ator Sean Penn na época).

A fotografia de Eduardo Serra está perfeita, e ajuda o diretor a nos conduzir nesta viagem. Por falar em viagem, o destino pode deixar a desejar, mas apenas se levarmos em consideração um único filme; e não no todo. Pois "Unbreakable" (título original do longa) não foi criado para ser um filme solo, e sim parte de um universo de seres com habilidades que podem ser vistas como doenças, ou vice-versa. Ele é apenas a primeira edição de uma história em quadrinhos, e contando a origem de seus protagonistas e nos preparando para o grande evento. A história de Dunn e Glass não termina quando os créditos começam a encher a tela, ela apenas tem sua origem estabelecida para algo muito maior que há por vim, e é exatamente o que estamos presenciando, a história sendo feita, e um novo estilo de super-herói sendo criado; um estilo que não traz deuses que podem romper os céus com seus poderes, mas sim homens que buscam de suas fraquezas o poder para erguer seu próprio céu.




CORPO FECHADO(2001), REVIEW


Com os lançamentos de "Fragmentado" e "Vidro", Corpo fechado ganhou uma notoriedade muito maior que a que obtivera em seu lançamento. O filme nunca foi visto como um longa ruim, porém seu real significado e toda sua complexidade só foi compreendido após o lançamento de "Fragmentado" (incríveis 17 anos depois!). O terceiro filme, "Vidro" reuniu todos os seus personagens para selar esse universo, pavimentando um novo tipo de franquia de heróis; colocando mais uma vez Shyamalan como um dos diretores mais visionários de sua geração.

Ele fez o que nenhum outro estúdio de heróis conseguiu fazer. Falar de super-heróis de uma forma complexa, humana e adulta; em uma época que até os filmes mais populares de quadrinhos enfrentavam dificuldades para sair do papel. Originalmente, a ideia do diretor era contar toda a sua história em um único filme, porém ficaria muito longo e confuso, então Shyamalan preferiu produzir uma franquia, que custou a sair do papel, mas quando saiu, fragmentou-se em cada fã da sétima arte.

Foi uma ousadia para aquela geração que apenas foi compreendida agora, onde é muito mais fácil falar sobre heroísmo, dons e poderes. Atualmente, tudo que se diz respeito a mutantes, meta-humanos, deuses, entre outros, é motivo de mais buscas no Google que qualquer outro assunto.
"Corpo fechado" é um daqueles filmes que só conseguimos perceber sua grandeza com o passar dos anos, e nos possibilita perceber as diversas faces de um produto.

Nem sempre a primeira impressão é a definitiva, ainda mais quando se trata do cinema. Existem diversas formas de interpretarmos uma obra, seja ela um quadro ou um filme por exemplo. A avaliação a priori é deduzida com base nos conhecimentos daquela época específica, impossibilitando termos a absorção de obras na vanguarda; e com o passar dos anos, a evolução de nosso pensamento consegue expandir a essência daquilo que fora demonstrado a anos atrás. "O Iluminado", de Stanley Kubrick é um ótimo exemplo do quanto um filme pode ser criticado em seu tempo, e ser aplaudido décadas após. Óbvio que a avaliação de uma obra no momento de sua primeira apresentação é impactante e fica em nossa mente mas, a regra nunca é exata, e há exceções de artes que são perfeitas para o seu tempo, e outras que se acentuam conforme os anos; e "Corpo fechado" é um ótimo exemplo disso.


"A arte por mais inapta em existir, existe. E existindo, ela está apta para ser chamada de arte"


Nenhum comentário:

Postar um comentário